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Mostrando postagens de 2026

O que será que será?

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A mãe acordou em prantos. Era uma terça-feira de janeiro. Chovia há dias. Seu filho mais novo se preparava para viajar. Era fato: em breve voaria para viver sua vida. Foi quando se deu conta de que ela era apenas canal, de vida. As lembranças foram surgindo em sua mente e se conscientizava da tremenda responsabilidade que era ser mãe, colocar um ser no mundo, ela que sonhou a vida inteira em ser mãe, e era, de um casal. Naquela manhã, era impossível tentar imaginar um dia sem ele também. Sua filha mais velha já tinha voado; o sentimento não era novo. Assim que seu filho saiu por àquela porta, seu companheiro passou a ser o notebook. Começou a escrever o que vinha à cabeça. Mas a vontade mesmo era de continuar a ter seus filhos por perto, grudadinhos, para sempre. Ela dizia à ela mesma: meu filho foi só ali, viajar. Mas ela sabia que em breve a casa ficaria mais fazia; ele voltaria para pegar suas coisas e dizer até breve. Ela não sabia como encararia o futuro, como planejaria seus próx...

Quero pouco

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Quero pouco.  Quero puro. Quero o azul do céu. Quero o novo.  Quero o bonito. Que fique bem longe, o ridículo! Quero agora.  Quero amanhã. Quero o tempo todo, o tempo para viver. Quero música! Liberdade! Água fresca e cristalina. Quero acordes afinados,  Som da natureza na pauta da composição. Quero maturidade infantil. Quero lugar para o simples. Quero apostar na felicidade. Quero sonho, sem açúcar. Quero lábios molhados. Quero tarde, amanhecer. Quero você. Mirra Medeiros - 13/08/2012 Foto autoral

Desconectei

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Acordei sem hora marcada Tomei café com calma  Fui caminhar  Dei duas voltas na avenida Me alonguei na sala.  Arrumei casa Fiz lentilha para o almoço Comi com arroz integral Tomei banho antes de almoçar.  Saí.  Andei devagar.  Comprei bijuterias, sutiã, vestido e cinto para combinar, pão fresco (branco e multigrãos) Encontrei pessoas. Prestei atenção em outras coisas. Led, meu filho, não quis me acompanhar. Uma reunião seria marcada Não me ligaram Eu também não liguei. Sempre que lembrava Respirava fundo. Passei ao banco Tinham depositado um valor Sem me avisar.  Liguei para meu filho Perguntei se tinha sido ele Como a resposta foi não Achei melhor chegar em casa para averiguar. Até uma pessoa me ligou para oferecer sua casa na praia Para eu descansar! Liguei pra uma amiga Falei com outra pelo telefone Não parei para pensar É possível! Não quero escrever aqui Coisas que ‘esqueci’ de me conectar. Mirra Medeiros 18/09/2012 (manhã de terça-feira) Fot...

Costurando memórias

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  A pequena costureira Rita de Cássia. Cinco aninhos. Cantagalense. A menina gostava de ver sua mãe Maria costurando a mão as roupas da família. Certa vez, uma pessoa indicou uma loja no Paissandu, em Nova Friburgo, onde já moravam, que vendia máquinas usadas, quase velhas, e sua mãe comprou uma movida à manivela, Singer legítima, com muita dificuldade. Rita passou a pegar um banquinho de madeira da casa, o colocar deitado e balançá-lo para um lado e para o outro, ao lado dela, para escutar aquele som como se estivesse costurando também. A cena se repetia sempre que a mãe se dedicava a coser. Na década de 30 era comum as mulheres costurarem roupas para a família, fazer consertos e pijamas, por exemplo. O tempo foi passando e aquele universo a encantava: a transformação.  15 anos Ante de completar seus 15 anos, Rita já trabalhava na Fábrica Ypu, em uma sessão que produzia peças em couro: cintos e carteiras. Foi quando teve a oportunidade de aprender Corte e Costura em um curso ...

Círculo da vida

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O giro da energia A circulação. O aqui, o agora, o amanhã O ontem, agora, o aqui. Sol que nasce Chuva que dorme Chuva que acorda Sol que descansa Amigo que chega. Caminho que faz a curva Tarde que não passa Saudade que machuca. Memória que se apaga Sentimento que alimenta Paixão que não foi vivida Tempo que não se cansa Melancolia escondida. Parada para respirar Fôlego para continuar Perfume que traz lembrança. Grito que silencia Lembranças que não se apagam Palavras engasgadas na garganta. Sonhos de uma noite de inverno Esperança nas noites quentes de verão. Cheiro de tempero Som de panela de pressão Grão de feijão à mesa. Falta de abraço Toque de recolhimento Porta fechada. Aconchego, isolamento Curva no meio do caminho Espelho virado pra parede. Sono, cansaço. Medo que paralisa e gela. Cochilo.  Mirra Medeiros - 01/08/2009 (não exatamente!) Foto autoral agosto 2026

Aos 40

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A pele já não é tão rígida Mas o brilho da experiência é marcante. O sorriso já não se abre para qualquer coisa Mas ao ocupar um lugar na face É certo que algo de muito especial faz parte de uma alma feminina. Os cabelos brancos vão ocupando os espaços dos cabelos castanhos E mechas naturais destacam o rosto Que olhou em tantas direções por 40 anos. O olfato já não se deixa despertar para qualquer coisa Ele faz parte de um jogo onde dá as regras. As mãos macias, por conta de cremes hidratantes São capazes de percorrer caminhos com muito mais segurança. Já não se toca a mesma música no aparelho de som Mas a audição é, a cada dia, mais refinada. E o sofisticado dá lugar ao casual Que através dos lábios é capaz de apreciar novos sabores E desejar experimentar o inesperado. O olhar não fere Procura. O perfume não incomoda Atrai. Os dedos não se impõem Deslizam. As curvas não sumiram Se escondem nas lembranças das histórias. Já não há tantas formas definidas Mas há espaços ainda ocultos a s...

Marcas de um tempo

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  Em meu e-mail* Na busca por poesias Palavras sobre 2011 Que com certeza escrevi Deparei-me com informações sobre Alertas Pontos de Apoio Estágios de Atenção. Nova Friburgo quase dormia Quando uma forte chuva Tirou muita gente da cama Pra colocar os pés na lama No chão. O que eu, friburguense, não sabia É que a chuva de janeiro de 2011 Levaria para sempre A certeza do amanhã. Passei a conviver com o medo e ao cair uma primeira gotinha buscava informações sobre deslizamento. Demorei a voltar a ter coragem De apreciar chuva de granizo De parar tudo que eu estivesse fazendo Para contemplar gotinhas que caem do céu Que molham plantas e criam partituras no telhado. Aprendi a viver em alerta, confesso Mas quando posso Desligo as sirenes internas Agradeço por ainda estar aqui Olho para o passado E aos poucos ainda vou curando Tantas marcas que aquele tempo deixou. Mirra Medeiros - 2021 *em janeiro de 2011 eu trabalhava no Departamento de Comunicação Social da Prefeitura de Nova Friburgo/...

Olinda

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 "Hoje está Sol Quero cantar Uma canção Para limpar Qualquer tristeza Que há. Hoje está Sol Quero agradecer Mesmo assim O vento que sopra Em meu ser. Hoje está Sol Não há motivo Para chorar. Hoje é meu dia Eu quero cantar E irradiar a Claridade do Sol."  Mirra Medeiros - 19/07/2007 - (Olinda / PE) - Letra de música Foto autoral

Diferenças

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O relógio ainda não marca seis horas da manhã O dia está clareando E resolvo refletir sobre as diferenças. Às vezes é muito difícil lidar com as elas Mas são as diferenças que fazem girar o mundo Não tem como negar.  Não sou da área de exatas Mas me parece que em tudo há diferença.  Convivo com pessoas que têm dificuldade em entender Que dois mais dois são quatro Que há o direito e o esquerdo O lado de cima E o lado de baixo.  A diferença está entre ser alegre e ser triste Ser chato e bacana Ser competente e ‘deixa pra lá’.  Ser diferente é normal É normal se não causa atrito por isso! Pra mim, ser diferente é ser autêntico. Ser diferente deveria ser para somar Em alguns casos dividir Mas nunca zerar. A diferença não deve causar transtorno. A diferença deve provocar estudo Aprofundamento, reflexão Reavaliação de conceitos. Diferença não deve ser problema. As diferenças devem ser respeitadas e discutidas. Assim como não há o certo e o errado cem por cento Como pode ha...

Era sábado

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Sábado. Quatro horas da manhã. Ela tinha insônia. Naquele dia, como em muitos outros na madrugada, foi o barulho na rua que a acordou. Tocava uma música, em volume alto. A letra? Jamais entendeu. Música? Não para ela, que, aos seus quase 60 anos, escutava vários gêneros, mas a que ouvia não considerava música. Ela morou longe do centro da cidade e há dois anos precisou retornar ao ‘burburinho’. Precisava trabalhar, não dirigia e depender do transporte público não era viável; carros de aplicativos nem sempre estavam disponíveis quando precisava. Naquela noite, e em outras noites, teve vontade de unir-se aos ‘baderneiros'. Beber, fumar, se sacudir e tentar se divertir. Porém, por mais jovem que sua cabeça fosse, já seria demais, como se fosse se jogar do alto de uma montanha com uma cachoeira embaixo, sem água, seca pelo calor infernal que fazia naquele dia. Era quase véspera de Natal. Vestia uma camisola vermelha. Por apreciar a cromoterapia, achou que seu sono também poderia estar ...

Oração de sempre

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Bendita seja a água  Bendita seja a vida  Benditos sejam os livros As palavras, os gemidos. Bendita seja a música  A paisagem  Os pássaros  A brisa. Bendita seja a fé  A conquista  O amor  A esperança. Que os sonhos  Aconteçam todos os dias Que a tempestade  Seja breve E que o sorriso  Jamais desapareça. Bendito seja o olhar A face  O toque. Bendita seja a luz E o ar que se respira. Bendita seja a força  Que existe dentro de cada um. Bendita seja a flor  A brisa fresca  O orvalho  O anoitecer. Bendita seja a terra  A semente  E o homem que a cultiva. Bendita seja  A capacidade de dormir e acordar. Bendita seja a coragem  De abrir a janela, a porta  E dar passos em direção ao dia que se inicia. Bendita seja a natureza! Benditos sejam  Os corações dos homens  Que não se tornaram pedras! Mirra Medeiros - 16/02/2003 Foto autoral

Consecutivos barulhos

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O Recanto não é mais o mesmo. O dia começa com uma mensagem no celular. Depois vem o barulho de pombos andando sobre telhas, bem na direção da minha cabeça, ainda no travesseiro. Tento ignorar os ‘sons’ para despertar. Antes de começar a escrever, ligo a máquina de lavar roupas e seu barulho se soma aos outros. Lá fora, um caminhão é carregado de latinhas para reciclagem, bem embaixo da janela do meu quarto. Mais à frente, um esguicho de água lava a rua e um automóvel, durante muitos minutos. A essa altura, as crianças da casa vizinha acordaram e suas falas e ‘gritos’ podem ser ouvidos em meio aos consecutivos barulhos. Oh, céus! Como o silêncio é precioso! Já não basta o barulho dos meus pensamentos? Mirra Medeiros - 01/03/2012 Foto Led Lemos

Pernas

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  São elas, as pernas que me acordam para caminhar. À noite reclamam. No dia seguinte as coloco para trabalhar. Mirra Medeiros - 04/01/2024 Foto autoral

Hora do anjo

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Serei forte. Enxugarei as lágrimas e colocarei um sorriso no rosto Mesmo que por dentro o coração esteja fragilizado. Demonstrarei carinho e afeto para não preocupar E, quem sabe, assim conseguirei afastar a tristeza A preocupação, a fragilidade, a dúvida? Outubro chega para aquecer Para aprofundar laços Para colorir. Aos poucos vamos esquecendo o cinza e o bege do inverno E transformando o cenário em arco-íris. Pássaros coloridos saem de seus ninhos E procuram campos floridos. E o canto dos pássaros vira mantra Todas as manhãs e final da tarde Quando o ar está mais fresco. Brisa de outubro Brisa de primavera Abençoem essa terra Os humanos As plantas E os animais. Mirra Medeiros  -  08:08 -  28/09/2014 Foto autoral

Sapatos da vida

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Depois de terem colocado roupinhas assim que nasceu, vestiram em seus pés o primeiro sapatinho. Ele aqueceu como um abraço. Era vermelho, de tricô, mas até hoje não se sabe quem o teceu. Todos os dias era trocado, cada par de uma cor, diferente das camisinhas pagão, que em sua maioria era em tons pastéis. E como em um toque de mágica, a mamãe escolhia tudinho para combinar. Na proporção em que os dias iam passando, em alguns momentos ela queria arrancá-los, e quando ficava com os pés para cima olhava cuidadosamente, em detalhes, embora ninguém percebesse. Os sapatos tinham laços e fitas, eram engomados ou bem macios, que, juntos com as meias, aqueciam ainda mais os seus pezinhos. Nasceu em julho e até hoje não gosta muito do frio. Seus pés sempre foram os primeiros a dar sinal de desconforto. A menina foi crescendo e usando o modelo estilo ‘boneca’, que gosta até hoje, aos seus 58 anos de idade. Sem muitos detalhes, simples, mas cheios de estilo, por causa dos materiais em que são conf...

Almoço em família

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1970 - Macarronada com molho de tomate e carne moída, ovo cozido cortado em rodelas para decorar, e queijo parmesão ralado 2020 - Massa com molho de manjericão e muçarela ligth 1970 - Frango caipira ensopado, com bastante temperinho verde 2020 - Frango grelhado com alcaparras 1970 - Pudim de leite com calda de caramelo 2020 - Pavê diet 1970 - Coca-Cola com açúcar 2020 - Coca-Cola zero açúcar 1970 - Pessoas reunidas à mesa. Risadas, falatório. 2020 - Pessoas em silêncio à mesa. Celulares nas mãos, olhares dispersos, silêncio. 1970 - Uma mão segura a outra. 2020 - Falsa ilusão de que uma mão segura a outra. 1970 - A vida verde, ao ar livre. 2020 - A vida encaixada. 2025 - Sobrevive quem volta a promover almoços em família, com macarronada, frango caipira, pudim de leite e Coca-Cola. Regra Única - Sem celular à mesa, pelo menos enquanto se saboreia o Amor que ainda resta.  Mirra Medeiros - 12/01/2025 (domingo) Foto autoral

Lírio-da-paz

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No centro da cidade barulhenta tem um silêncio que vem dos apartamentos.  Quando mudou para o prédio antigo e bem localizado pensou que seria possível a convivência saudável, o diálogo com os vizinhos. Em poucos meses, o melhor era se afastar, silenciar, para impor seus limites.  Raramente o interfone toca.  Raramente alguém das outras portas a convida para um café. Melhor assim. Ela precisa trabalhar. A diferença da pandemia é que, quando sai à rua, as pessoas andam aceleradas, de um lado para o outro, e nem reparam o lírio-da-paz plantado ao lado da entrada de um prédio comercial. Só quando chove a população fala uma língua só. No mais, o burburinho é imenso diante de coisas fúteis. Ela não quer, mas julga. E se isola. A boca cala. Seu corpo fala. A enxaqueca aparece. Os olhos embaçam. Há uma tristeza no peito. Um vazio.  O que a faz olhar para o futuro são os laços com a família, filho, filha e neta.  Ela se permite sonhar a ganhar abraços, a andar de mãos da...