Era sábado

Sábado. Quatro horas da manhã. Ela tinha insônia.
Naquele dia, como em muitos outros na madrugada, foi o barulho na rua que a acordou.
Tocava uma música, em volume alto. A letra? Jamais entendeu. Música? Não para ela, que, aos seus quase 60 anos, escutava vários gêneros, mas a que ouvia não considerava música.
Ela morou longe do centro da cidade e há dois anos precisou retornar ao ‘burburinho’. Precisava trabalhar, não dirigia e depender do transporte público não era viável; carros de aplicativos nem sempre estavam disponíveis quando precisava.
Naquela noite, e em outras noites, teve vontade de unir-se aos ‘baderneiros'. Beber, fumar, se sacudir e tentar se divertir. Porém, por mais jovem que sua cabeça fosse, já seria demais, como se fosse se jogar do alto de uma montanha com uma cachoeira embaixo, sem água, seca pelo calor infernal que fazia naquele dia.

Era quase véspera de Natal. Vestia uma camisola vermelha. Por apreciar a cromoterapia, achou que seu sono também poderia estar comprometido pelo tom da sua roupa. Lembrou de noites festivas em sua cama quente, de sonhos, de noites 'bem' dormidas.
Irritada, correu para suas redes sociais para denunciar o barulho, mas apagou o que tinha escrito. Era inútil, mais uma vez, reclamar.
Uma vez escutou de um conhecido que aquele som alto na madrugada era só as sextas-feiras. Mas o barulho era também as quintas, sábados, dias de jogo de futebol, feriados.
Passado mais de uma hora andando de um lado ao outro na casa, depois de beber água, acender um cigarro e guardar algumas roupas que tinha tirado do varal bem mais cedo, lembrou de bombons que ganhou no dia anterior e comeu, dois. Escovou os dentes novamente. Ingeriu algumas bolinhas de homeopatia, pegou papel e caneta e escreveu... escreveu... escreveu.

O barulho lá fora continuava.

Precisava dormir para no dia seguinte, ou melhor, nas horas seguintes, bem próximas, acordar. Teria que levantar-se da cama leve, linda, para mais um dia de trabalho. Descanso mesmo só no domingo, que, com Sol ou chuva, dormiria até tarde, talvez até à tarde, quando a rua estaria silenciosa e só escutaria sons de pássaros e cigarras. 

Acendeu um incenso. Tentava de tudo para abstrair o barulho, ‘a música’, que nenhuma mensagem transmitia. Acordaria de olheiras. Lembrou que tinha corretivo para isso. Passaria o dia inteiro estressada. Talvez teria um tempinho à tarde para cochilar. Fez exercícios de respiração e posturas de yoga para acalmá-la. Apagou as poucas luzes que ainda estavam acesas. Imaginou os ponteiros de um relógio analógico, carneirinhos pulando e ela contando. A cortina do seu quarto, um pouco aberta, permitiu que entrasse a luz do dia clareando. O alarme do seu celular despertou. Uma noite perdida. Levantou-se. Tomou banho quase frio. Fez seu desjejum. Arrumou-se, de vermelho. Tomou mais um café e saiu para trabalhar. 

Bom dia!

Mirra Medeiros - 16/12/2023

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