O que será que será?


A mãe acordou em prantos.
Era uma terça-feira de janeiro.
Chovia há dias.
Seu filho mais novo se preparava para viajar.
Era fato: em breve voaria para viver sua vida.
Foi quando se deu conta de que ela era apenas canal, de vida.
As lembranças foram surgindo em sua mente e se conscientizava da tremenda responsabilidade que era ser mãe, colocar um ser no mundo, ela que sonhou a vida inteira em ser mãe, e era, de um casal.
Naquela manhã, era impossível tentar imaginar um dia sem ele também. Sua filha mais velha já tinha voado; o sentimento não era novo.
Assim que seu filho saiu por àquela porta, seu companheiro passou a ser o notebook.
Começou a escrever o que vinha à cabeça. Mas a vontade mesmo era de continuar a ter seus filhos por perto, grudadinhos, para sempre.
Ela dizia à ela mesma: meu filho foi só ali, viajar.
Mas ela sabia que em breve a casa ficaria mais fazia; ele voltaria para pegar suas coisas e dizer até breve.
Ela não sabia como encararia o futuro, como planejaria seus próximos dias sem sofrimento.
Tinha uma única certeza: não estava preparada para ficar sozinha, mesmo sabendo que esse dia chegaria.
Durante o dia, respirou fundo muitas vezes.
Ela conhecia o desejo de seus filhos voarem.
Precisou ser forte mais uma vez.
Sofreu.
Muitas mães sofrem.
E por que ela também não aguentaria?
O dia passou...
As lágrimas não passaram...
Ainda como o notebook aberto e lá fora a escuridão da noite, escreveu:
O que será que será? 

Mirra Medeiros - 11/01/2022
Foto autoral

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