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O que será que será?

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A mãe acordou em prantos. Era uma terça-feira de janeiro. Chovia há dias. Seu filho mais novo se preparava para viajar. Era fato: em breve voaria para viver sua vida. Foi quando se deu conta de que ela era apenas canal, de vida. As lembranças foram surgindo em sua mente e se conscientizava da tremenda responsabilidade que era ser mãe, colocar um ser no mundo, ela que sonhou a vida inteira em ser mãe, e era, de um casal. Naquela manhã, era impossível tentar imaginar um dia sem ele também. Sua filha mais velha já tinha voado; o sentimento não era novo. Assim que seu filho saiu por àquela porta, seu companheiro passou a ser o notebook. Começou a escrever o que vinha à cabeça. Mas a vontade mesmo era de continuar a ter seus filhos por perto, grudadinhos, para sempre. Ela dizia à ela mesma: meu filho foi só ali, viajar. Mas ela sabia que em breve a casa ficaria mais fazia; ele voltaria para pegar suas coisas e dizer até breve. Ela não sabia como encararia o futuro, como planejaria seus próx...

Quero pouco

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Quero pouco.  Quero puro. Quero o azul do céu. Quero o novo.  Quero o bonito. Que fique bem longe, o ridículo! Quero agora.  Quero amanhã. Quero o tempo todo, o tempo para viver. Quero música! Liberdade! Água fresca e cristalina. Quero acordes afinados,  Som da natureza na pauta da composição. Quero maturidade infantil. Quero lugar para o simples. Quero apostar na felicidade. Quero sonho, sem açúcar. Quero lábios molhados. Quero tarde, amanhecer. Quero você. Mirra Medeiros - 13/08/2012 Foto autoral

Desconectei

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Acordei sem hora marcada Tomei café com calma  Fui caminhar  Dei duas voltas na avenida Me alonguei na sala.  Arrumei casa Fiz lentilha para o almoço Comi com arroz integral Tomei banho antes de almoçar.  Saí.  Andei devagar.  Comprei bijuterias, sutiã, vestido e cinto para combinar, pão fresco (branco e multigrãos) Encontrei pessoas. Prestei atenção em outras coisas. Led, meu filho, não quis me acompanhar. Uma reunião seria marcada Não me ligaram Eu também não liguei. Sempre que lembrava Respirava fundo. Passei ao banco Tinham depositado um valor Sem me avisar.  Liguei para meu filho Perguntei se tinha sido ele Como a resposta foi não Achei melhor chegar em casa para averiguar. Até uma pessoa me ligou para oferecer sua casa na praia Para eu descansar! Liguei pra uma amiga Falei com outra pelo telefone Não parei para pensar É possível! Não quero escrever aqui Coisas que ‘esqueci’ de me conectar. Mirra Medeiros 18/09/2012 (manhã de terça-feira) Fot...

Costurando memórias

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  A pequena costureira Rita de Cássia. Cinco aninhos. Cantagalense. A menina gostava de ver sua mãe Maria costurando a mão as roupas da família. Certa vez, uma pessoa indicou uma loja no Paissandu, em Nova Friburgo, onde já moravam, que vendia máquinas usadas, quase velhas, e sua mãe comprou uma movida à manivela, Singer legítima, com muita dificuldade. Rita passou a pegar um banquinho de madeira da casa, o colocar deitado e balançá-lo para um lado e para o outro, ao lado dela, para escutar aquele som como se estivesse costurando também. A cena se repetia sempre que a mãe se dedicava a coser. Na década de 30 era comum as mulheres costurarem roupas para a família, fazer consertos e pijamas, por exemplo. O tempo foi passando e aquele universo a encantava: a transformação.  15 anos Ante de completar seus 15 anos, Rita já trabalhava na Fábrica Ypu, em uma sessão que produzia peças em couro: cintos e carteiras. Foi quando teve a oportunidade de aprender Corte e Costura em um curso ...

Círculo da vida

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O giro da energia A circulação. O aqui, o agora, o amanhã O ontem, agora, o aqui. Sol que nasce Chuva que dorme Chuva que acorda Sol que descansa Amigo que chega. Caminho que faz a curva Tarde que não passa Saudade que machuca. Memória que se apaga Sentimento que alimenta Paixão que não foi vivida Tempo que não se cansa Melancolia escondida. Parada para respirar Fôlego para continuar Perfume que traz lembrança. Grito que silencia Lembranças que não se apagam Palavras engasgadas na garganta. Sonhos de uma noite de inverno Esperança nas noites quentes de verão. Cheiro de tempero Som de panela de pressão Grão de feijão à mesa. Falta de abraço Toque de recolhimento Porta fechada. Aconchego, isolamento Curva no meio do caminho Espelho virado pra parede. Sono, cansaço. Medo que paralisa e gela. Cochilo.  Mirra Medeiros - 01/08/2009 (não exatamente!) Foto autoral agosto 2026

Aos 40

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A pele já não é tão rígida Mas o brilho da experiência é marcante. O sorriso já não se abre para qualquer coisa Mas ao ocupar um lugar na face É certo que algo de muito especial faz parte de uma alma feminina. Os cabelos brancos vão ocupando os espaços dos cabelos castanhos E mechas naturais destacam o rosto Que olhou em tantas direções por 40 anos. O olfato já não se deixa despertar para qualquer coisa Ele faz parte de um jogo onde dá as regras. As mãos macias, por conta de cremes hidratantes São capazes de percorrer caminhos com muito mais segurança. Já não se toca a mesma música no aparelho de som Mas a audição é, a cada dia, mais refinada. E o sofisticado dá lugar ao casual Que através dos lábios é capaz de apreciar novos sabores E desejar experimentar o inesperado. O olhar não fere Procura. O perfume não incomoda Atrai. Os dedos não se impõem Deslizam. As curvas não sumiram Se escondem nas lembranças das histórias. Já não há tantas formas definidas Mas há espaços ainda ocultos a s...

Marcas de um tempo

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  Em meu e-mail* Na busca por poesias Palavras sobre 2011 Que com certeza escrevi Deparei-me com informações sobre Alertas Pontos de Apoio Estágios de Atenção. Nova Friburgo quase dormia Quando uma forte chuva Tirou muita gente da cama Pra colocar os pés na lama No chão. O que eu, friburguense, não sabia É que a chuva de janeiro de 2011 Levaria para sempre A certeza do amanhã. Passei a conviver com o medo e ao cair uma primeira gotinha buscava informações sobre deslizamento. Demorei a voltar a ter coragem De apreciar chuva de granizo De parar tudo que eu estivesse fazendo Para contemplar gotinhas que caem do céu Que molham plantas e criam partituras no telhado. Aprendi a viver em alerta, confesso Mas quando posso Desligo as sirenes internas Agradeço por ainda estar aqui Olho para o passado E aos poucos ainda vou curando Tantas marcas que aquele tempo deixou. Mirra Medeiros - 2021 *em janeiro de 2011 eu trabalhava no Departamento de Comunicação Social da Prefeitura de Nova Friburgo/...