Costurando memórias

 

A pequena costureira

Rita de Cássia. Cinco aninhos. Cantagalense. A menina gostava de ver sua mãe Maria costurando a mão as roupas da família. Certa vez, uma pessoa indicou uma loja no Paissandu, em Nova Friburgo, onde já moravam, que vendia máquinas usadas, quase velhas, e sua mãe comprou uma movida à manivela, Singer legítima, com muita dificuldade. Rita passou a pegar um banquinho de madeira da casa, o colocar deitado e balançá-lo para um lado e para o outro, ao lado dela, para escutar aquele som como se estivesse costurando também. A cena se repetia sempre que a mãe se dedicava a coser. Na década de 30 era comum as mulheres costurarem roupas para a família, fazer consertos e pijamas, por exemplo. O tempo foi passando e aquele universo a encantava: a transformação. 

15 anos

Ante de completar seus 15 anos, Rita já trabalhava na Fábrica Ypu, em uma sessão que produzia peças em couro: cintos e carteiras. Foi quando teve a oportunidade de aprender Corte e Costura em um curso oferecido pelo Sesi, aos funcionários, onde ensinavam, principalmente, a fazer moldes em papel. Era à noite e longe de casa, mas teve o apoio dos pais. Com o diploma em mãos, se desligou da fábrica, comprou sua primeira máquina de costura, com pedal, e seguiu costurando, aprendendo mais e mais a cada dia, na prática. 

Uma vizinha, que trabalhava na empresa El Jaick, conhecida como Camisaria Friburgo, soube que estavam precisando de uma costureira e a indicou, sabendo do seu talento. Trabalhou por cerca de seis anos costurando camisas e cuecas de tricoline, um tecido bom, de algodão, branco, fininho. 

Rita fez seu próprio vestido de 15 anos, um modelo que viu em uma das aulas de Corte e Costura: saia rodada, godê, com comprimento tapando os joelhos (antigamente moça não usava vestido ou saia os mostrando), de tecido shantung branco, com golinha esporte, abertinho na frente, com botõezinhos até a cintura. Embora o calçado fosse importante para o figurino, anos mais tarde ela não se lembrava o que usou, mas seu cabelo era castanho claro, meio ondulado, compridinho, pegando no ombro. 

Rio de Janeiro

Rita parou de trabalhar para a família El Jaick quando escolheu se casar e ter filhos. Ganhou sua primeira filha em Nova Friburgo e logo precisou mudar-se para o Rio de Janeiro, bairro Madureira, para acompanhar o seu marido, militar. Por lá chegou a costurar, de casa, para uma confecção localizada no centro do Rio. 

Mesmo trabalhando para fora, ela continuou a costurar roupinhas para sua primeira filha, Susy, uma bonequinha viva. Fazia calcinhas e vestidinhos para o dia a dia. Certa vez, ela cortou uma camisa de tecido azul clarinho, que era do seu marido, mas que não poderia ser mais usada pelo desgaste do tempo, pois os uniformes da Marinha sempre tinham que estar impecáveis, e fez um vestido para Festa Junina para a pequena, que tinha menos de dois aninhos.

De volta à Nova Friburgo

Durante muitos anos, Ritinha costurava para toda a família: vestidos para a  sua mamãe, camisas para o seu papai, pijamas e roupões de flanela para todos, porque os invernos era muito rigorosos em Nova Friburgo. Quando as vizinhas viam, encomendavam também. Muitas vezes nem fazia molde. Com a fita métrica e giz de cera riscava o tecido com as medidas das clientes. 

Quando sua filha Susy foi para o Jardim de Infância, Rita começou a ter intimidade com outras mulheres, que descobriram que ela costurava. Pronto. Dia a dia aumentava sua clientela. Uma freguesa que falava para outra, que falava para outra e sempre tinha serviço. Para ela, costurar não era só uma questão de renda extra, mas distração. 

Ritinha acompanhou a instalação de lojas em Nova Friburgo que vendiam tecidos de todo tipo: a do seu Alexandre, que tinha uma loja com o próprio nome; a Casa Lealtex; A Vencedora; Casa Cláudia, que vendia tecidos mais chiques; e Varejão da Fábrica, que inicialmente era na Praça Getúlio Vargas. 

Tinha um dia na semana que ela não abria a máquina para costurar. Era o dia que agendava com suas freguesas para experimentarem as peças. Ela, que foi se aperfeiçoando na costura, preferia não fazer consertos em roupas, pois era mais trabalhoso do que fazer uma nova. Como nem tudo são flores, tinha cliente que, ao provar a roupa, pedia para mexer meio centímetro. Sabendo que não ia fazer diferença, não alterava, e a cliente ficava satisfeita. Quanto ao valor do seu serviço, cobrava o que vinha em sua cabeça. Com orgulho, Rita guarda na memória uma vez que fez um vestido de noiva e cobrou um valor que achava justo. A mãe da noiva pagou o dobro, de tanto que gostou.  

Além de costureira, Rita de Cássia era dona de casa. Varria; lavava; passava; tirava a poeira dos móveis; fazia faxina, compras para a casa e aviamentos para as roupas das clientes. A filha mais velha, Susy, trabalhava fora e tinha horário para almoçar. E lá ia Rita para o fogão preparar tudo com muito amor para alimentá-las. Já a mais nova, Scheila, estudava e quando voltava da escola, seu almoço estava arrumado em uma frigideira de tampa azul, para só esquentar. Como dava conta? Nem mesmo ela sabia dizer. E foi assim durante muitos anos, de perder a conta. 

No auge da sua profissão, morava em uma casa própria, no bairro Cordoeira, que o piso tinha sido coberto com carpete batido, para deixar o ambiente mais quentinho, pois os invernos em Nova Friburgo eram muito rigorosos. Mas àquelas linhas que caiam das costuras eram um problema. Parecia uma obra de arte à parte; linhas coloridas por todo o chão. Rita não tinha um cômodo exclusivo para trabalhar. Ora sua máquina de costura ficava no quarto dos fundos da casa, ora no da frente. Depois de um tempo com calos nas mãos de tanto varrer e porque nem todas saiam nem com  aspirador, quando conseguiu comprar um, tirou o carpete. 

A maioria dos fregueses era mulher. Mas também fazia camisas e blusões para homens, tirando a medida ou tendo uma outra peça como base; e eles ficavam satisfeitos, até porque ela tinha experiência porque começou a costurar profissionalmente fazendo roupas masculinas. Certa vez, fez um blusão para o marido de uma colega de trabalho da Susy. A esposa explicou como ele gostaria e Rita fez um igualzinho. O homem ficou muito satisfeito com o resultado. E depois um outro viu o blusão e quis igual. Perguntavam à ela como conseguia fazer com tamanha perfeição, captar exatamente como eles queriam, e ela respondia: só fiz direitinho. 

Costurando as memórias, a virginiana Rita de Cássia lembrava de uma freguesa que a buscava em casa para olhar um modelo em uma vitrine. Na hora, guardava na mente o que via e ao chegar em casa desenhava e anotava os detalhes em uma caderneta. Ela fazia igual. E aos 89 anos, ainda se recordava dos nomes de algumas freguesas que teve contato ao longo da vida e de algumas que foram partindo com o tempo: Márcia, Iolanda, Beth, Glorinha, Zélia, Cristina, e tantas outras. 

Rita também costurou fantasia de Carnaval. Uma vez foi para seu irmão Carlinhos, ligado ao mundo da moda, e para seu amigo Paulo, que tinha a loja Paulo Modas, no centro de Nova Friburgo, e resolveram desfilar, na última hora, em uma ala da Agremiação Carnavalesca Alunos do Samba. Outra vez foi para a Escola de Samba Unidos da Saudade. A costureira ficou assoberbada e pediu ajuda para ela. 

Para a sua segunda filha, Scheila, ela lembra de ter feito um vestido verde, esvoaçante, quase transparente, e roupas com os tecidos pelo avesso, que ela pedia, para ficar diferente das outras peças feitas com o mesmo tecido, pois não queria que ninguém tivesse igual. Fez muita roupa para a neta Schelly; para o neto Led, não, pois de uma outra geração, não gostava de roupa de alfaiataria. Hoje em dia ele até gosta de roupas de linho, camiseta e bermuda, principalmente, mas a avó não chegou a costurar pra ele. Fez diversas roupas para a bisneta, Clara, que hoje está com 11 anos: vestidinhos, blusas, calças, trajes para festa junina e fantasias de carnaval. 

Como as filhas de Rita cresceram entre revistas de moda, moldes, linhas, agulhas, alfinetes, giz de cera, fita métrica, botões e fechos, Susy se tornou uma exímia artesã, tricotando e crochetando peças lindas: colchas, almofadas, bolsas, roupas de lã e linha; e Scheila desenhava suas próprias roupas, para a mãe fazer, e se atrevia a costurar algumas peças para seu uso, reaproveitando retalhos de jeans; lençóis de algodão, que depois tingia; tecidos pelo avesso, porque as tramas eram também interessantes; tecidos de fralda, que depois de prontas fazia tie-dye; chitão etc.; e ainda fazia colares e bolsas. E assim, elas seguiram pela vida: inventando moda. 








Mirra Medeiros (Scheila Lemos Santiago)
Texto original 01/02/2026 – Nova Friburgo/RJ

A crônica faz parte do livro "Com que roupa eu vou?" 
lançado em 19/09/2026 pelo Projeto Juntas & Diversas
do Instituto Leituras, com organização de Márcia Lobosco
Foto ao lado: Fernanda Casalli

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