Sapatos da vida
Na proporção em que os dias iam passando, em alguns momentos ela queria arrancá-los, e quando ficava com os pés para cima olhava cuidadosamente, em detalhes, embora ninguém percebesse. Os sapatos tinham laços e fitas, eram engomados ou bem macios, que, juntos com as meias, aqueciam ainda mais os seus pezinhos. Nasceu em julho e até hoje não gosta muito do frio. Seus pés sempre foram os primeiros a dar sinal de desconforto.
A menina foi crescendo e usando o modelo estilo ‘boneca’, que gosta até hoje, aos seus 58 anos de idade. Sem muitos detalhes, simples, mas cheios de estilo, por causa dos materiais em que são confeccionados ou pelas cores. Para o seu batizado, aos 15 anos, desenhou o sapato que iria levá-la à igreja. Branco. Exclusivo. Ela gosta daquele modelo sapatilha, que deixa os pés plantados ao chão, para sentir o fluxo da vida.
Adolescente, ainda tentou usar sapato com salto, alto, por ser considerado elegante, mas só os dedinhos ficam mais perto do chão. O salto alto deixa a postura ereta, mas não diz quem realmente a pessoa é. ‘Subir no salto’ é meio que uma imposição de intenção, firmeza, posicionamento, e pode esconder quem se é de verdade. Acha lindo, mas não é o preferido.
Hoje, andando em sua casa, mesmo gostando de tudo muito arrumado, organizado, ela se dá conta de que eles fazem parte de alguns cantinhos e são quase objetos de decoração. Perto da bicicleta ergométrica, um tênis; no tapetinho da entrada, um chinelo, pois não gosta de entrar em casa com os que anda na rua, ‘sujos’ das pisadas de outros seres. Tem sapato de inverno, bota; sapato de verão, sandália; modelo baixinho, como os sapatinhos de bebê, de crianças que precisam de firmeza para dar seus primeiros passos.
Se recusa a usar sapatos que não sejam confortáveis. Se compra ou ganha e não se adequam aos seus pés, que precisam de abrigo, passa para frente para que eles procurem outras moradas. Faz questão de estar sempre com os pés o mais perto do chão, na base da vida.
Tão lindo quando a criança, bem pequena ainda, dá seus primeiros passos. Os pés sustentam todo o resto. Em aulas de pilates, teatro ou dança, são eles, os pés, que precisam estar firmes no chão para sustentar o movimento do corpo, da fala.
Ela lembra de uma vez que estava vestindo um sapato lindo, feito de palha. Caminhava com sua mãe pelas ruas da cidade. Tinha salto, não tão alto, mas começou a machucar os pés e tirou. Caminhou descalça pela principal avenida. Precisava sentir os pés tocando o solo. Foi andando descalça até chegar em casa, que não era muito longe, mas, claro, sua mãe achou aquilo uma loucura e não quis que caminhasse ao lado dela. Ficou com vergonha.
Crescida, passou a escolher ainda mais os seus sapatos. Eles passam a maior parte do dia com ela. E ela cuida, conserva. Tem sapato com mais de dez anos, pois sabendo escolher, sapato tem uma boa vida útil e ainda se torna vintage. Alguns, guarda em saquinho de tecido, separados. Sapatos são especiais. Seguem pela vida, tornam-se cúmplices de momentos.
Para seus filhos, sempre escolheu sapatos confortáveis, até um pouco largos, para que os pés fiquem à vontade dentro deles. Sapato deve ser usado para abrigar os pés que percorrem lindos, e às vezes longos, caminhos. Precisa ser seguro, para levar de um lado ao outro, com determinação e fé.
Não tem um dia em que ela vá à rua que não olhe uma vitrine com sapatos. Eles chamam sua atenção. Modelos lindos. Outros bizarros. Uns baratos. Outros, nem tanto. Mas ela não precisa de sapatos. Não é uma centopeia. Precisa apenas de um par.
Embora com tantos sapatos no seu armário, muitas vezes usa o mesmo. É quando percebe que são eles que escolhem a hora de sair.
Mirra Medeiros - 08/10/2022

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