Lírio-da-paz

No centro da cidade barulhenta tem um silêncio que vem dos apartamentos. 
Quando mudou para o prédio antigo e bem localizado pensou que seria possível a convivência saudável, o diálogo com os vizinhos.
Em poucos meses, o melhor era se afastar, silenciar, para impor seus limites. 
Raramente o interfone toca. 
Raramente alguém das outras portas a convida para um café.
Melhor assim. Ela precisa trabalhar.
A diferença da pandemia é que, quando sai à rua, as pessoas andam aceleradas, de um lado para o outro, e nem reparam o lírio-da-paz plantado ao lado da entrada de um prédio comercial.
Só quando chove a população fala uma língua só. No mais, o burburinho é imenso diante de coisas fúteis.
Ela não quer, mas julga. E se isola. A boca cala. Seu corpo fala. A enxaqueca aparece. Os olhos embaçam. Há uma tristeza no peito. Um vazio. 
O que a faz olhar para o futuro são os laços com a família, filho, filha e neta. 
Ela se permite sonhar a ganhar abraços, a andar de mãos dadas, quase todos os dias, com a Luz Divina.  

Mirra Medeiros - 24/02/2026 - Lua Crescente
 

 

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